A publicação em Acesso Aberto (AA) tem uma longa história, que remonta ao início da década de 1990, e nasceu com a intenção explícita de melhorar o acesso à literatura acadêmica. A internet desempenhou um papel fundamental na obtenção de apoio para publicações de pesquisa gratuitas e reutilizáveis, bem como para sistemas de revisão por pares mais robustos e democráticos — que não estejam presos às restrições de plataformas de publicação influentes. Apesar dos muitos obstáculos que a distribuição de informações teve que superar, ela evoluiu significativamente, passando dos limites restritos a algumas poucas fontes selecionadas para, em sua maior parte, estar amplamente disponível ao público, tudo como resultado direto do desenvolvimento da internet. Essa tendência de maior acessibilidade à pesquisa acadêmica é fruto de séculos de construção, com a internet e os sistemas de acesso aberto precedidos pela invenção da imprensa e dos sistemas de produção em massa.
Olhando para trás, olhando para frente
Lançado em 1991, o arXiv.org foi uma plataforma pioneira nesse sentido, um exemplo eloquente de como pesquisadores podiam cooperar para publicar artigos acadêmicos gratuitamente e de forma totalmente acessível ao público. Embora apresente limitações — os artigos são selecionados por moderadores e não passam por revisão por pares —, o arXiv demonstra como a tecnologia pode ser usada para superar alguns dos problemas de incentivo e distribuição aos quais a pesquisa científica tem sido submetida há muito tempo. A própria comunidade científica assumiu a responsabilidade por esse fim: a Iniciativa de Acesso Aberto de Budapeste (BOAI) e a Declaração de Berlim sobre Acesso Aberto, lançadas em 2002 e 2003, respectivamente, são consideradas movimentos marcantes na luta pelo acesso irrestrito à pesquisa científica. Embora em grande parte simbólico, o esforço evidenciou o crescente desejo de solucionar os problemas que assolam a área por meio da tecnologia. O manifesto da BOAI começa com uma declaração que resume o propósito do movimento: “Uma antiga tradição e uma nova tecnologia convergiram para tornar possível um bem público sem precedentes. A antiga tradição é a disposição de cientistas e acadêmicos em publicar os frutos de suas pesquisas em periódicos científicos sem remuneração, em prol da investigação e do conhecimento. A nova tecnologia é a internet. O bem público que elas tornam possível é a distribuição eletrônica mundial da literatura científica revisada por pares e o acesso totalmente gratuito e irrestrito a ela por todos os cientistas, acadêmicos, professores, estudantes e outras mentes curiosas.” O Plano S é uma tentativa mais recente de tornar a pesquisa financiada com recursos públicos acessível a todos. Lançado pela Science Europe em setembro de 2018, o Plano S — abreviação de “Shock” (Choque) — energizou a comunidade científica com sua resolução de tornar o acesso ao conhecimento financiado com recursos públicos um direito de todos e dissolver o ecossistema de publicação científica movido pelo lucro. Os membros da União Europeia prometeram alcançar esse objetivo até 2020. O Plano S também recebeu apoio de governos fora da Europa. A China apoiou veementemente essa iniciativa, e o estado da Califórnia promulgou uma lei que exige o acesso aberto à pesquisa um ano após a publicação. Naturalmente, não está isenta de desafios: a defesa da causa e a garantia de que a publicação não seja restrita a poucos locais são dois desses obstáculos. No entanto, a organização responsável pela elaboração das diretrizes, a cOAlition S, concordou em torná-las mais flexíveis. A emergência dessa tendência, porém, não ocorre sem dificuldades, e inúmeros obstáculos continuam a dificultar a disseminação de informações de maneira verdadeiramente transparente e pública. Entre os principais, destacam-se as muitas barreiras que ainda mantêm a pesquisa como propriedade quase exclusiva, além da falta de financiamento e pessoal para a infraestrutura e o desenvolvimento de tais sistemas.
Progresso e obstáculos restantes
Dizer que a centralização do poder de publicação científica é a origem de todos esses problemas pode ser simplista, mas continua sendo um dos principais obstáculos ao avanço científico. As plataformas de Acesso Aberto (AA) têm recebido críticas pelos seus modelos propostos; algumas críticas são direcionadas às plataformas "híbridas" que permitem tanto a publicação aberta quanto serviços por assinatura, e outras à sustentabilidade de uma plataforma que depende, na prática, da boa vontade e da motivação para publicar nelas. Qualquer forma de publicação científica acarreta custos de processamento e, seja ela verdadeiramente aberta ou por assinatura, a fonte de financiamento torna-se um problema. Uma solução proposta é obter recursos de bolsas de pesquisa, embora isso também não seja garantia de sucesso. Uma mudança cultural na mentalidade dos pesquisadores é um problema mais intangível que pode representar um obstáculo ainda maior. Como convencer um pesquisador a adotar uma plataforma de AA menos conhecida quando sua carreira depende da publicação em um periódico de "alto impacto"? Impulsionar o AA para o mainstream e unir instituições e pesquisadores renomados é um desafio sério que será uma tarefa prolongada, exigindo esforço constante. Além da comercialização da pesquisa científica, a relativa novidade das metodologias de Acesso Aberto (AA) também significa que elas estão em considerável desvantagem na competição com periódicos já estabelecidos. Reduzir essa lacuna exige financiamento e recursos humanos, o que pode ser difícil de convencer as novas gerações de acadêmicos que desejam se destacar publicando suas pesquisas em plataformas que possuem uma reputação, ainda que questionável, de prestígio. Os Fatores de Impacto (FIs), calculados e publicados pelo Instituto de Informação Científica (ISI), representam outro problema crítico para os periódicos de AA e já foram amplamente discutidos. Os FIs determinam o prestígio de um periódico e a avaliação dos pesquisadores, que são incentivados a publicar em periódicos com FIs altos. O problema é que, como a maioria dos periódicos de AA são recentes, os fatores de impacto são baixos, enquanto pesquisas de alta qualidade só se acumulam com o tempo. Essa é uma barreira significativa para os periódicos de AA, que buscam atrair pesquisas da mais alta qualidade. Apesar desses desafios, muitas iniciativas de acesso aberto vislumbram um futuro com potencial ilimitado para os bancos de dados de acesso aberto. Em termos gerais, o acesso livre à informação pode incentivar o engajamento cívico, o empreendedorismo e o crescimento econômico. A própria natureza das plataformas de Acesso Aberto também facilita a preservação de dados, o que é importante para as gerações futuras. Podemos imaginar um futuro onde uma plataforma de Acesso Aberto descentralizada seja um centro de descoberta e disseminação de conhecimento, oferecendo APIs públicas que possam incentivar a pesquisa interdisciplinar e o desenvolvimento empreendedor.
Existem soluções tecnológicas, e outras estão sendo desenvolvidas
Existe uma solução para esses problemas, uma solução que vem ganhando força e se desenvolvendo: sistemas distribuídos de acesso aberto que tornam a pesquisa o mais acessível e reutilizável possível. Estruturas modulares que oferecem promoção de autores, desenvolvimento orientado pela comunidade, transparência na revisão por pares, submissão de manuscritos e ferramentas de networking, além de serviços de hospedagem, são apenas algumas das soluções em consideração. Por exemplo, a Collaborative Knowledge Foundation (Coko) concentra-se fortemente em soluções lideradas pela comunidade e oferece soluções para publicação de livros, revisões por pares e “micropublicações”, permitindo que pesquisadores publiquem os resultados periódicos obtidos ao longo de um projeto. As Tecnologias de Registro Distribuído (DLTs) levam as propriedades mencionadas um passo adiante, substituindo os modelos hierárquicos antigos por soluções completas ou híbridas, com mecanismos eficazes de incentivo por tokens que estimulam uma revisão por pares mais confiável e justa para garantir publicações de alta qualidade. A Apograf é um exemplo de plataforma que implementa soluções DLT, agregando publicações nas áreas de criptografia, computação distribuída e tecnologia blockchain. A plataforma foi integrada ao registro ORCID, que preserva a acreditação do autor e permanece utilizável ao longo de sua carreira. Os benefícios de plataformas de Acesso Aberto (AA) implementadas e adotadas com sucesso são significativos demais para serem ignorados. Avanços já foram feitos, mas esse tipo de plataforma ainda enfrenta desafios culturais e econômicos a serem superados antes que possa abrir completamente o acesso à publicação científica.
Conclusão
Embora a implementação do Acesso Aberto ainda enfrente obstáculos, os benefícios superam em muito o esforço necessário para sua popularização. Com diversas soluções sendo desenvolvidas, um problema que se arrasta há décadas está prestes a vivenciar uma transformação radical. Contudo, para que o Acesso Aberto se torne um padrão global, é necessária uma mudança tanto no espaço digital quanto na mentalidade da comunidade científica. Leia o artigo original em:
https://medium.com/apograf-hq/the-landscape-of-open-data-policies-58baa426c554